Ela voltou.

Ela Voltou
Se alguém me tivesse contado esta história há vinte anos, eu teria respondido que era impossível.
Hoje já não digo isso.
Limito-me a contar exatamente aquilo que vivi e deixo cada pessoa tirar as suas próprias conclusões.
Porque há coisas para os quais nunca encontrei uma explicação completamente racional. E isso não traz mal ao mundo.
A verdade é que a Luna morreu duas vezes.
Ou talvez tenha vivido duas vidas.
A Luna apareceu no meu quintal numa tarde de outubro.
Era uma gatinha muito pequena, de pelo branco com manchas cinzentas e uns olhos verde-escuros que pareciam observar tudo em silêncio.
Não trazia coleira.
Não tinha medo das pessoas.
Entrou em casa como se sempre tivesse vivido ali.
Tentámos descobrir o dono durante semanas.
Ninguém a reclamou.
Acabou por ficar.
Nunca tive filhos.
A Luna tornou-se a minha família, uma filhota.
Dormia aos meus pés, seguia-me para todo o lado e tinha uma mania muito particular.
Sempre que eu chorava, subia para o meu colo e encostava a cabeça ao meu peito até eu acalmar.
Como se soubesse exatamente quando eu precisava dela.
A minha vida era tranquila.
Morava na mesma casa desde que os meus pais faleceram.
Era uma moradia antiga, com um pequeno jardim e um terreno nas traseiras.
Nunca pensei vendê-la.
Nem sequer me passava essa ideia pela cabeça.
Até porque aquela casa guardava toda a história da minha família. As minhas memórias.
Foi precisamente aí que começaram os problemas.
A minha vizinha, a D. Amélia, comprou a casa ao lado.
Era educada quando havia pessoas por perto.
Quando estávamos sozinhas, mudava completamente.
Falava constantemente do terreno.
— Se um dia vender a casa, avise-me primeiro.
Eu sorria.
— Não penso vender.
Ela insistia.
— Pense bem. Podíamos unir os dois terrenos. Ficava tudo muito mais bonito.
Recusei sempre.
Foi então que deixou de sorrir.
As primeiras semanas foram estranhas.
A D. Amélia começou a aparecer com bolos caseiros.
Compotas.
Pão acabado de fazer.
Até sopa.
Dizia que fazia comida a mais e que seria um desperdício deitá-la fora.
E que eu estava sozinha, já não tinha os meus pais e ela gostava de ajudar.
Era uma atenção.
Aceitei algumas vezes.
Parecia apenas um gesto de simpatia. Quem mal não vê, mal não acusa não é?
Mas, pouco depois, comecei a sentir-me constantemente cansada.
Dormia mal.
Perdi o apetite.
Acordava sempre entre as três e as quatro da manhã.
Os exames médicos não revelavam nada de anormal.
Ainda assim, eu sentia que o meu corpo enfraquecia todos os dias.
Pensei que fosse da solidão, por pensar demais no passado, nos meus pais que já não os tinha aqui, sei lá pensei em tanta coisa e nada justificava o meu estado na verdade.
A única que parecia notar alguma coisa era a Luna.
Sempre que a vizinha aparecia, a gata eriçava o pelo.
Rosnava.
Nunca a tinha visto fazer aquilo com ninguém.
Parecia um cão. Até metia medo.
Alterava-se completamente. Nem parecia a minha Luna.
Um domingo de manhã encontrei uma vela preta apagada junto ao portão.
Pensei que fosse uma brincadeira de garotos.
Deitei-a ao lixo.
Na semana seguinte apareceu outra.
Depois outra.
Mais tarde começaram a surgir pequenos embrulhos feitos com pano escuro.
Alguns continham terra.
Outros pareciam sal grosso misturado com fios de cabelo.
Certa manhã encontrei um velho rolo de cabelo preso com linha vermelha, escondido entre as plantas junto à entrada.
Não fazia ideia do significado daquilo.
Mas comecei a sentir medo.
Não das velas.
Nem dos objetos. Nunca acreditei muito nessa coisas de bruxarias.
Mas do ambiente.
A casa parecia diferente.
Pesada.
Como se o ar fosse mais difícil de respirar.
As noites tornaram-se piores.
Ouvia passos no corredor.
Portas a bater.
Sussurros vindos do quintal.
Por duas vezes acordei convencida de que alguém estava sentado na cadeira do meu quarto.
Acendia a luz.
Não havia ninguém.
Mas a Luna permanecia imóvel, a olhar para o mesmo canto.
Completamente eriçada.
Uma madrugada começou a bufar para o vazio.
Depois avançou lentamente, como se enfrentasse alguma coisa invisível.
Rosnou durante quase cinco minutos.
Quando finalmente parou, caiu exausta no chão.
Foi a primeira vez que pensei que aquilo podia ser mais do que eu estava a pensar.
Contei tudo a uma amiga.
Ela ouviu-me em silêncio.
Depois perguntou apenas:
— Tens guardado algum dos bolos?
Respondi que não.
Então pediu-me que deixasse imediatamente de aceitar qualquer comida da vizinha.
Também me aconselhou a limpar a entrada da casa e a retirar todos os objetos estranhos que encontrasse.
Fiz exatamente isso.
Mas os acontecimentos continuaram.
Passei a encontrar pequenas marcas junto à porta.
Cera derretida.
Cinzas.
Ervas secas.
Por vezes, até ovos partidos.
Era como se alguém deixasse constantemente alguma coisa durante a noite.
Nunca consegui apanhar ninguém.
Foi nessa altura que procurei ajuda.
Não queria vingança.
Nem queria fazer mal a ninguém.
Queria apenas voltar a viver em paz na minha casa
A senhora veio a minha casa, até deu-me com carinho, ouviu toda a história sem me interromper.
Depois olhou para a Luna, que dormia aos meus pés.
— Ela está a proteger-la.
Sorri, sem perceber.
— É só uma gata.
A mulher abanou lentamente a cabeça.
— Os animais, por vezes, reagem de formas que nós não compreendemos. Seja qual for a explicação, ela está constantemente entre si e aquilo que a assusta.
Não me ensinou qualquer ritual.
Disse apenas que eu precisava de recuperar a tranquilidade, afastar o medo e deixar de alimentar aquele ciclo de angústia.
Também me pediu que cuidasse especialmente da Luna.
Infelizmente…
Já era tarde.
Poucos dias depois, a minha querida gatinha começou a mudar.
Deixou de brincar.
Dormia quase o dia inteiro.
Emagrecia apesar de continuar a comer.
Os veterinários fizeram exames.
Não encontraram doença nenhuma.
Era como se o corpo simplesmente estivesse a desistir.
Na última noite, a Luna fez uma coisa que nunca esquecerei.
Levantou-se com enorme dificuldade.
Veio até ao meu colo.
Olhou-me diretamente nos olhos.
Começou a ronronar.
E adormeceu.
Para sempre.
Segurei-a durante horas.
Foi uma das maiores dores da minha vida.
Depois do funeral da Luna, aconteceu algo inesperado.
A minha saúde começou lentamente a melhorar.
Voltei a dormir normalmente.
O peso dentro de casa desapareceu.
As vozes terminaram.
Os pesadelos também.
Ao mesmo tempo, a D. Amélia começou a adoecer.
Primeiro surgiram crises de ansiedade.
Depois dizia ouvir pessoas dentro de casa.
Contava cada coisa aos vizinhos!
Afirmava que sombras a observavam.
Chamava a polícia por causa de vozes inexistentes.
Acabou internada numa unidade psiquiátrica.
Nunca mais regressou àquela casa.
Não senti alegria.
Apenas tristeza.
Percebi que o ódio acaba muitas vezes por aprisionar quem o alimenta.
Passaram quase três anos.
Nunca pensei voltar a ter outro animal.
Sentia que estaria a substituir a Luna.
Até que, numa manhã de primavera, ouvi um miar junto ao portão.
Era uma gatinha muito pequena.
Branca.
Com manchas cinzentas.
Os mesmos olhos verdes.
Pensei que fosse apenas coincidência.
Levei-a ao veterinário.
Fiquei com ela.
Chamei-lhe Aurora.
Nos primeiros dias comportou-se como qualquer gato curioso.
Depois começaram as coincidências.
Dormia exatamente no mesmo lugar da Luna.
Gostava da mesma manta azul.
Ignorava todos os brinquedos, menos uma pequena bola de cortiça que a Luna adorava e que ainda estava no mesmo sítio.
Subia para o meu colo sempre que eu chorava.
Encostava a cabeça ao meu peito da mesma maneira.
Até fazia um pequeno som antes de adormecer.
Um ronronar entrecortado que nunca ouvi noutro gato.
A maior surpresa aconteceu meses depois.
Estava a arrumar a arrecadação quando encontrei uma velha caixa.
Lá dentro estava a coleira da Luna.
Tinha desaparecido antes da morte dela.
Corri tudo á procura dela e não encontrei.
Coloquei-o sobre a mesa.
A Aurora entrou na divisão.
Parou imediatamente.
Cheirou a pequena coleira.
Depois começou a esfregar a cabeça nela. exatamente como a Luna fazia todas as noites antes de dormir.
Não podia conhecer aquele objeto.
Nunca o vira.
Mesmo assim, parecia reconhecê-lo.
Senti um nó na garganta.
Com o tempo, deixei de procurar respostas.
Talvez fosse apenas coincidência.
Talvez os animais tenham personalidades parecidas.
Ou talvez existam laços que sobrevivem ao tempo de formas que ainda não compreendemos.
O que sei é que a Aurora transformou novamente a minha casa.
Voltei a rir.
A cuidar do jardim.
A abrir as janelas.
A viver sem medo.
Há poucos meses aconteceu a última coisa inexplicável.
Estava a organizar fotografias antigas.
Encontrei uma da Luna ainda bebé.
Coloquei-a no chão enquanto limpava a moldura.
A Aurora aproximou-se devagar.
Sentou-se diante da fotografia.
Olhou durante muito tempo para a imagem.
Depois levantou uma das patas.
Tocou exatamente sobre o focinho da Luna.
E começou a ronronar.
As lágrimas caíram-me sem conseguir evitá-las.
Naquele instante deixei de precisar de saber se era reencarnação, memória, coincidência ou apenas uma forma bonita de o universo me confortar.
Porque, independentemente da explicação, o amor que a Luna me deu nunca desapareceu.
Apenas encontrou outra forma de voltar até mim.
No mês passado encontrei um envelope antigo escondido entre os documentos da casa.
Era uma carta escrita pela minha mãe muitos anos antes.
Falava da minha avó.
Contava que, quando ela perdera o seu primeiro gato, aparecera semanas depois outro praticamente igual.
A minha mãe escreveu uma frase que mexeu muito comigo, ainda mexe para falar a verdade.
“Há animais que entram na nossa vida para nos fazer companhia. Mas há outros que recebem uma missão. Quando a cumprem, partem. E, se o amor que deixaram for suficientemente forte, encontram sempre o caminho de volta.”
Fechei a carta.
Olhei para a Aurora, que dormia enroscada exatamente no mesmo canto onde a Luna costumava dormir.
Nesse momento abriu os olhos.
Veio até junto de mim.
Encostou a cabeça ao meu peito.
E fez o mesmo ronronar suave que eu julgava nunca mais voltar a ouvir.
Talvez algumas almas não regressem para começar uma nova vida.
Talvez regressem apenas para terminar um abraço que nunca chegou verdadeiramente ao fim.
Rita Isabel Azevedo – Night Wings Tarot