A filha que não voltou para casa no Halloween

A filha que não voltou para casa no Halloween.

A chuva batia nas janelas com uma violência pouco habitual para aquela altura do ano.

Na cozinha, uma pequena abóbora iluminada projetava sombras alaranjadas nas paredes. O vento fazia estremecer as árvores do jardim e, de vez em quando, ouvia-se o portão de ferro ranger.

Era noite de Halloween.

Matilde, de quinze anos, estava sentada à mesa, a terminar uma chávena de chocolate quente.

A mãe, Helena, encontrava-se junto à janela, a observar a rua.

— Mãe, posso fazer-te uma pergunta?

— Claro, filha.

— Porque é que nunca gostaste do Halloween?

Helena demorou a responder.

— Não é por não gostar…

— Então, porque é que nunca me deixas sair nesta noite? Nem sequer gostas que eu vá a festas.

A mãe afastou-se da janela.

Durante alguns segundos, ficou a olhar para a filha como se estivesse a tentar tomar uma decisão.

Finalmente, sentou-se à sua frente.

— Há uma coisa que nunca te contei.

Matilde sorriu.

— Uma história de fantasmas?

— Gostava muito que fosse apenas isso.

A expressão de Helena fez desaparecer o sorriso da filha.

— Aconteceu há dois anos. Na noite de 31 de outubro. E, até hoje, continuo sem conseguir explicar o que vi.

Fez uma pausa.

— Mas há uma coisa de que tenho a certeza: naquela noite, trouxe alguém comigo no carro. Alguém que não devia existir.

Matilde pousou lentamente a chávena.

E Helena começou a contar.

Naquele ano, o Halloween calhou numa quinta-feira.

Lembro-me perfeitamente porque tinha tido um dia particularmente cansativo no trabalho.

Tu tinhas treze anos e estavas entusiasmada com a festa que a tua amiga Sofia tinha organizado em casa dos pais.

Passaste a tarde inteira a preparar o disfarce.

Lembras-te?

Vestiste-te de bruxa. Tinhas um vestido preto, umas botas de cano alto e um chapéu que insistias em usar, apesar de te ficar constantemente a cair para os olhos.

Eu própria te ajudei com a maquilhagem.

Antes de saíres, tirei-te uma fotografia junto à porta de casa.

Disseste que a querias publicar nas redes sociais.

E eu deixei.

Hoje penso muitas vezes nessa fotografia.

Pergunto-me se tudo teria acontecido da mesma maneira se nunca a tivesses publicado.

Mas, nessa altura, não tinha qualquer motivo para me preocupar.

Os pais da Sofia eram pessoas de confiança. A festa era em casa deles e eu tinha combinado ir buscar-te às onze e meia.

Pouco depois das onze, começou a chover.

Não era uma chuva normal.

Eram bátegas fortes, acompanhadas por rajadas de vento que faziam as árvores vergarem-se sobre a estrada.

Às onze e vinte e oito, o meu telemóvel tocou.

Era um número desconhecido.

Atendi.

— Estou?

Durante alguns segundos, ouvi apenas um ruído estranho.

Parecia vento a passar por um túnel.

Depois ouvi a tua voz.

— Mãe?

— Matilde? Que se passa?

— Podes vir buscar-me?

— Claro. Já estava quase a sair.

Houve uma pequena pausa.

— Estou na paragem de autocarro, perto do parque. Vem depressa.

Achei estranho.

— Na paragem? Porque é que saíste de casa da Sofia?

— Depois explico. Por favor, mãe, vem buscar-me.

A chamada terminou.

Ainda tentei ligar novamente, mas ninguém atendeu.

Pensei que tinhas discutido com alguma amiga ou que te tinhas sentido mal e saído para apanhar ar.

Não gostei da ideia de estares sozinha à chuva.

Vesti um casaco, peguei nas chaves e saí.

Eram onze e trinta e quatro quando entrei no carro.

A estrada estava praticamente deserta.

As decorações de Halloween balançavam nas varandas das casas e as poucas pessoas que ainda circulavam na rua caminhavam apressadamente debaixo dos guarda-chuvas.

Quando me aproximei da paragem, vi alguém sentado no banco de metal.

Era uma rapariga.

Vestia-se exatamente como tu.

O mesmo vestido preto.

As mesmas botas.

O mesmo chapéu de bruxa.

Estava com a cabeça baixa e o cabelo molhado tapava-lhe parte do rosto.

Parei o carro junto ao passeio.

Abri o vidro.

— Matilde! Entra depressa, estás encharcada!

A rapariga levantou-se.

Aproximou-se lentamente e abriu a porta de trás.

Estranhei.

Tu costumavas sentar-te ao meu lado.

Mas pensei que estivesses zangada com alguma coisa.

Entraste, fechaste a porta e ficaste em silêncio.

— Então? O que aconteceu?

— Nada.

A voz saiu baixa.

— Como assim, nada? Telefonaste-me a pedir que viesse imediatamente.

— Quero ir para casa.

Olhei pelo espelho retrovisor.

O rosto estava parcialmente escondido pelo cabelo, mas reconhecia as tuas feições.

E, no entanto…

Havia qualquer coisa de errado.

Não sabia explicar o quê.

Talvez fosse a maneira como estavas sentada.

Demasiado direita.

Demasiado imóvel.

Tinham passado alguns minutos quando reparei que não estavas a tremer.

O teu cabelo pingava água para o banco e a roupa estava completamente molhada.

Mas não parecias sentir frio.

Aumentei o aquecimento.

— Não te constipas porque não calha. Quando chegarmos, vais tomar um banho quente.

Não respondeste.

Continuei a conduzir.

Foi então que ouvi uma pergunta.

— Mãe… gostavas de mim se eu fosse diferente?

Franzi o sobrolho.

— Diferente como?

— Se eu não fosse exatamente como tu te lembras.

Olhei novamente pelo espelho.

A rapariga estava a sorrir.

Era um sorriso pequeno.

Quase tímido.

— Claro que gostava de ti. És minha filha.

A resposta pareceu agradar-lhe.

— Mesmo que ninguém mais gostasse?

— Matilde, o que aconteceu naquela festa?

O sorriso desapareceu.

— Não quero falar da festa.

Nesse momento, o meu telemóvel começou a tocar.

O ecrã do carro mostrou o teu nome.

MATILDE A LIGAR

Senti um aperto no estômago.

Olhei pelo espelho.

Continuavas sentada no banco de trás, perfeitamente imóvel.

O telefone continuava a tocar.

— Esqueceste-te do telemóvel em casa da Sofia? — perguntei.

A rapariga não respondeu.

— Matilde?

Então, muito devagar, inclinou a cabeça para um dos lados.

— Não atendas, mãe.

O meu coração acelerou.

— Porquê?

— Porque não é para ti.

A chamada terminou.

Durante alguns segundos, só ouvi a chuva e o som do motor.

Depois, o telemóvel voltou a tocar.

O mesmo nome.

A mesma fotografia.

A minha filha.

Desta vez, atendi.

— Matilde?

Do outro lado ouvi música, vozes e risos.

E depois ouvi-te.

A tua voz verdadeira.

Alegre.

Impaciente.

— Mãe! Onde é que estás? Já passa das onze e meia!

Senti o sangue gelar.

— Onde estás tu?

— Na casa da Sofia, claro! Onde é que havia de estar?

O mundo pareceu parar.

Olhei pelo espelho retrovisor.

A rapariga continuava a observar-me.

— Matilde… estás mesmo na casa da Sofia?

— Estou, mãe! Aconteceu alguma coisa?

Tentei manter a voz firme.

— Passa o telefone à mãe da Sofia.

— Porquê?

— Faz o que te estou a pedir.

Ouvi passos e depois a voz de Teresa, a mãe da tua amiga.

— Helena? Está tudo bem?

— A Matilde está aí?

— Está, sim. Estamos todos na cozinha. Quer que lhe diga alguma coisa?

Apertei o volante com tanta força que me começaram a doer os dedos.

— Não a deixe sair de casa.

— Desculpe?

— Teresa, por favor. Não deixe a Matilde sair. Eu já vou buscar-vos.

Desliguei.

Durante alguns segundos, não consegui mexer-me.

Então ouvi uma gargalhada.

Baixinha.

Vinha do banco de trás.

— Porque é que fizeste isso, mãe?

A minha voz saiu quase num sussurro.

— Quem és tu?

A rapariga deixou de sorrir.

Olhou-me através do espelho.

E respondeu:

— Sou a tua filha.

Matilde interrompeu a mãe.

— Mas isso é impossível.

Helena assentiu.

— Eu também pensei o mesmo.

— Podia ser alguém disfarçado de mim. Uma brincadeira.

— Foi o que tentei convencer-me de que era.

A mãe respirou fundo.

— Até olhar para os pés dela.

Não me perguntes porquê, mas naquele momento senti necessidade de olhar para baixo.

O interior do carro estava pouco iluminado.

Conseguia distinguir as botas pretas pousadas sobre o tapete.

E vi água.

Muita água.

Escorria da roupa da rapariga e acumulava-se junto aos seus pés.

Mas havia algo que me fez sentir uma náusea imediata.

A água não era transparente.

Era escura.

Espessa.

Como a água parada no fundo de um poço.

E trazia pequenas folhas apodrecidas.

Voltei a olhar para o espelho.

— Sai do meu carro.

A rapariga continuou imóvel.

— Porquê?

— Porque não és a minha filha.

Pela primeira vez, vi-lhe o rosto completamente.

Era o teu.

Não uma pessoa parecida.

Não alguém com a mesma maquilhagem.

Era exatamente o teu rosto.

Mas os olhos…

Os olhos pareciam estar a olhar para mim de muito longe.

Como se houvesse alguém escondido atrás deles.

— Disseste que gostavas de mim — murmurou.

— Sai do carro.

— Prometeste que me levavas para casa.

Carreguei no botão para destrancar as portas.

— Sai!

A rapariga baixou lentamente a cabeça.

Por momentos, pareceu-me que ia obedecer.

Depois, ouvi-a falar outra vez.

Só que agora não tinha a tua voz.

Tinha a minha.

Exatamente a minha.

— Não levantas a voz à tua filha, Helena.

Senti um terror tão profundo que quase deixei o motor ir abaixo.

Era como ouvir uma gravação da minha própria voz.

Com a mesma maneira de pronunciar as palavras.

As mesmas pausas.

Até a mesma respiração.

Peguei no telemóvel e procurei o número de emergência.

A rapariga inclinou-se para a frente.

— Não vale a pena chamar ninguém.

Continuei a carregar no ecrã.

Então senti uma mão pousar-se no meu ombro.

Estava gelada.

E molhada.

— Só quero ir para casa, mãe.

Soltei um grito.

Acelerei.

Sei que devia ter parado e saído imediatamente do carro.

Mas estava aterrorizada.

E, acima de tudo, queria afastar aquela coisa da casa onde vivíamos.

A nossa casa.

O lugar onde tu dormias.

O lugar onde estavam as tuas fotografias, os teus brinquedos de infância, as tuas roupas.

O lugar onde ela queria entrar.

Conduzi em direção ao hospital.

Sabia que as urgências estavam abertas toda a noite e que encontraria pessoas.

Durante o percurso, a rapariga permaneceu calada.

Só quando me aproximei da rotunda principal é que voltou a falar.

— A nossa casa não é por aqui.

Não respondi.

— Estás a levar-me para longe.

Continuei a conduzir.

— Fiz alguma coisa de mal?

A voz voltou a ser a tua.

Tão convincente que me fez sentir vontade de chorar.

— Porque é que já não me queres?

Nesse momento compreendi uma coisa terrível.

Aquela criatura não estava apenas a imitar-te.

Estava a tentar fazer-me sentir culpa.

A transformar o amor que sentia por ti numa forma de me obrigar a obedecer-lhe.

Aproximei-me do hospital.

Vi a entrada das urgências, iluminada por grandes candeeiros brancos.

Havia uma ambulância estacionada e duas pessoas junto à porta automática.

Nunca me senti tão aliviada.

Parei junto à entrada.

Desliguei o motor.

E disse:

— Chegámos.

A rapariga levantou a cabeça.

— Esta não é a nossa casa.

— Não.

— Mentiste-me.

Abri a porta do condutor.

Antes de sair, ouvi-a dizer:

— Se me deixares aqui, vou ter de voltar a procurar-te.

Corri até à entrada das urgências.

O segurança aproximou-se quando me viu chegar, encharcada e a tremer.

— Preciso de ajuda! Está alguém dentro do meu carro!

O homem olhou na direção que eu apontava.

— A senhora está ferida?

— Não! É uma rapariga! Está sentada no banco de trás!

O segurança chamou um colega.

Os dois acompanharam-me ao exterior.

Aproximei-me do carro com as pernas a tremer.

As portas estavam fechadas.

As janelas embaciadas.

Um dos homens apontou uma lanterna para o interior.

Depois olhou para mim.

— Senhora… não está ninguém.

Aproximei-me.

O banco de trás estava vazio.

Mas continuava molhado.

A água escura espalhava-se pelo tapete.

E havia uma pequena marca na janela.

Uma mão.

A impressão de uma mão pousada no vidro, do lado de dentro.

O segurança viu-a.

— Transportou alguma criança?

Abanei a cabeça.

Não conseguia falar.

Porque aquela mão era demasiado pequena para pertencer a uma rapariga de treze anos.

Parecia a mão de uma criança de quatro ou cinco.

Os homens chamaram as autoridades.

Expliquei tudo o que consegui.

Naturalmente, ninguém acreditou na parte mais importante.

Pensaram que eu estava em choque, que alguém se tinha escondido no carro ou que fora vítima de uma tentativa de assalto.

A polícia verificou o veículo.

Não encontrou ninguém.

Também não encontrou sinais de arrombamento.

Mas houve um pormenor que ninguém conseguiu explicar.

Quando analisaram as imagens das câmaras de vigilância exteriores do hospital, viram-me chegar, estacionar e sair do carro.

Na gravação, eu corria desesperada em direção às urgências.

E, logo a seguir, acontecia uma coisa estranha.

A porta de trás do carro abria-se.

Muito devagar.

Ficava aberta durante alguns segundos.

E voltava a fechar-se.

Mas não se via ninguém a entrar ou a sair.

Nem uma criança.

Nem uma rapariga.

Nem uma sombra.

Apenas uma porta que parecia abrir-se sozinha.

Helena fez uma pausa.

A chuva continuava a cair do lado de fora.

Matilde tinha deixado de beber o chocolate quente.

— E depois? — perguntou.

— Depois fui buscar-te a casa da Sofia. A Teresa insistiu em acompanhar-nos até casa.

— Eu lembro-me disso. Estavas muito pálida.

— Estava.

— Mas nunca me disseste o que tinha acontecido.

— Não sabia como contar-te.

Matilde olhou para a mãe.

— E aquela… coisa? Nunca mais a viste?

Helena demorou a responder.

— Não exatamente.

Nos dias seguintes, tentei convencer-me de que tudo tinha uma explicação.

Podia ter sido uma partida cruel.

Alguém podia ter imitado a tua voz.

Hoje sabemos como é fácil manipular fotografias, criar imagens falsas e até reproduzir a voz de uma pessoa com recurso à tecnologia.

Mas nada disso explicava o que eu tinha visto.

Muito menos a água.

O cheiro a terra molhada.

Ou aquela mão pousada no meu ombro.

Uma semana depois, voltei à paragem de autocarro.

Queria observar o lugar durante o dia.

Era uma paragem antiga, junto a um pequeno terreno abandonado.

Naquela manhã, um homem da câmara municipal encontrava-se a limpar a vegetação.

Perguntei-lhe se havia algum poço por ali.

O homem apontou para trás do muro.

— Havia um, sim. Muito antigo. Foi tapado há uns anos.

Senti o coração acelerar.

Perguntei-lhe porquê.

Ele respondeu que o terreno tinha sido considerado perigoso depois de um acidente.

— Que acidente?

O homem hesitou.

Depois contou-me que, muitos anos antes, uma criança tinha desaparecido naquela zona.

Uma menina.

Na noite de Halloween.

Aparentemente, tinha saído de casa com um grupo de amigos, todos mascarados.

Nunca regressou.

O corpo só foi encontrado vários dias depois, no fundo daquele poço.

A criança tinha cinco anos.

E usava um disfarce de bruxa.

Não perguntei mais nada.

Fui embora.

Quando cheguei a casa, sentei-me ao computador.

Procurei notícias antigas.

Demorei algum tempo, mas encontrei uma pequena reportagem publicada num jornal regional.

A fotografia era de fraca qualidade.

Mostrava uma menina sorridente, com cabelo escuro e um chapéu de bruxa demasiado grande para a cabeça.

Chamava-se Laura.

Tinha desaparecido na noite de 31 de outubro de 1998.

Mas não foi a fotografia que mais me perturbou.

Foi uma frase do artigo.

Segundo uma testemunha, a criança tinha sido vista pela última vez junto à paragem de autocarro.

Estava sozinha.

E dizia que esperava pela mãe.

Matilde levou uma mão à boca.

— Mãe…

Helena permaneceu em silêncio.

— Estás a dizer que era o fantasma daquela menina?

— Não sei, filha.

— Mas ela parecia-se comigo.

— Exatamente.

A mãe olhou para a abóbora iluminada no centro da mesa.

— E foi isso que me fez perceber que talvez não fosse a menina que morreu no poço.

— Então, quem era?

Helena levantou os olhos.

— Talvez fosse aquilo que a chamou para lá.

A cozinha ficou em silêncio.

Durante alguns segundos, só se ouviu a chuva.

Até que Matilde perguntou:

— E como é que sabes que queria entrar em nossa casa?

Helena olhou-a fixamente.

— Porque, três dias depois, recebi outra chamada.

— Da mesma pessoa?

— Do mesmo número desconhecido.

— Atendeste?

— Não.

— E depois?

— Deixou uma mensagem de voz.

Matilde endireitou-se na cadeira.

— Ainda a tens?

A mãe hesitou.

Depois pegou no telemóvel.

Abriu uma pasta de gravações antigas e procurou um ficheiro.

Encontrou-o.

— Nunca tive coragem de o apagar.

Carregou no botão de reprodução.

Ouviu-se um ruído baixo.

Uma espécie de interferência.

Depois, uma voz infantil.

Doce.

Quase carinhosa.

— Mãe…

Matilde ficou completamente imóvel.

A voz continuou:

— Já encontrei a nossa casa.

Seguiu-se um silêncio.

E depois, muito baixinho:

— Da próxima vez, vais abrir-me a porta?

A gravação terminou.

Matilde sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.

— Mãe… porque é que me estás a contar isto agora?

Helena olhou para o relógio da cozinha.

Faltavam três minutos para a meia-noite.

— Porque hoje é dia 31 de outubro.

— E então?

A mãe pousou o telemóvel sobre a mesa.

— Porque, esta manhã, recebi outra mensagem.

Matilde sentiu a garganta apertar-se.

— O que dizia?

Helena não respondeu imediatamente.

Levantou-se e foi até à janela.

A chuva tinha abrandado.

A rua estava deserta.

Do outro lado do jardim, o portão de ferro permanecia fechado.

A mãe falou quase num sussurro:

— Dizia que já não precisava que eu a fosse buscar.

Matilde sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.

— Porquê?

Helena virou-se lentamente.

— Porque agora já sabia o caminho.

Nesse preciso instante, a campainha tocou.

Uma vez.

Depois outra.

E uma terceira.

As duas ficaram imóveis.

Matilde olhou para a mãe.

— Não abras.

Helena não se mexeu.

Do corredor chegou um ruído.

Muito leve.

Como o som de água a pingar sobre o chão.

Então, do outro lado da porta, ouviu-se uma voz.

Uma voz de menina.

— Mãe?

Matilde apertou a mão de Helena.

A voz continuou.

— Já não estou à chuva.

Houve uma pausa.

Depois, a campainha voltou a tocar.

E a menina perguntou:

— Porque é que não me deixas entrar?

Helena aproximou-se lentamente da porta.

Não para a abrir.

Apenas para observar através do pequeno visor da câmara de segurança.

No ecrã apareceu uma rapariga.

Tinha o cabelo molhado.

Um vestido preto.

Botas escuras.

E um chapéu de bruxa demasiado grande.

Mas não tinha cinco anos.

Tinha quinze.

Era exatamente igual a Matilde.

A mesma altura.

O mesmo rosto.

Até o mesmo pijama que a verdadeira Matilde vestia naquela noite.

A rapariga levantou lentamente a cabeça.

Olhou diretamente para a câmara.

Sorriu.

E disse:

— Agora já sou grande, mãe.

Helena afastou-se do ecrã.

Atrás dela, Matilde começou a chorar.

— Mãe… o que é que ela quer?

Do outro lado da porta, ouviu-se outra vez aquela voz.

Só que agora era mais grave.

Mais adulta.

Era a voz de Helena.

— Ela não precisa de mim, Matilde.

Um silêncio pesado instalou-se na casa.

Então, a voz acrescentou:

— Só precisa que uma de vocês abra a porta.

Helena abraçou a filha.

E, pela primeira vez em dois anos, compreendeu uma coisa que lhe tinha escapado naquela noite.

A criatura nunca lhe pedira comida.

Nunca lhe pedira dinheiro.

Nunca lhe pedira ajuda para regressar à família.

Tinha-lhe pedido apenas uma coisa.

Que a levasse para casa.

Porque não procurava uma mãe.

Procurava uma família onde pudesse ocupar o lugar de alguém.

E estava disposta a esperar o tempo que fosse necessário.

A campainha deixou de tocar.

Passaram-se alguns segundos.

Depois, ouviram-se passos a afastar-se pelo jardim.

Helena permaneceu abraçada à filha até o silêncio regressar.

Só então teve coragem de olhar novamente para a câmara.

A entrada estava vazia.

Mas, sobre o tapete, havia uma pequena poça de água escura.

E, desenhada no vidro da porta, a marca de uma mão.

Uma mão de criança.

Matilde limpou as lágrimas.

— Achas que ela vai voltar?

Helena olhou para o relógio.

Era meia-noite e um minuto.

— Não sei, filha.

Apagou a luz da cozinha e conduziu Matilde até ao quarto.

Antes de fechar a porta, deu-lhe um beijo na testa.

— Mas há uma coisa que quero que nunca esqueças.

— O quê, mãe?

Helena segurou-lhe o rosto entre as mãos.

— Se alguma vez alguém te chamar à porta e disser que sou eu, certifica-te primeiro de que não estou já dentro de casa.

Matilde assentiu.

A mãe apagou a luz e saiu.

No corredor, o telemóvel de Helena vibrou.

Era uma nova mensagem.

Do mesmo número desconhecido.

Desta vez, não havia qualquer gravação de voz.

Apenas uma fotografia.

Helena abriu-a.

A imagem mostrava a cozinha da sua casa.

A mesa.

A abóbora iluminada.

As duas chávenas de chocolate quente.

E duas pessoas sentadas frente a frente.

Helena e Matilde.

A fotografia tinha sido tirada naquela noite.

Enquanto a mãe contava a história à filha.

Mas havia um pormenor.

Ao fundo da imagem, no vidro escuro da janela, refletia-se uma terceira pessoa.

Uma menina pequena.

De vestido preto.

Com o cabelo encharcado.

Estava de pé atrás de Matilde.

E tinha uma das mãos pousada no ombro da rapariga.

Helena ampliou a fotografia.

Foi então que viu a expressão da menina.

Não estava a olhar para a mãe.

Estava a sorrir para a filha.

Por baixo da fotografia havia uma única frase:

«Obrigada por me contares a história, mãe. Agora ela também sabe que eu existo.»

Nesse instante, vinda do quarto de Matilde, ouviu-se uma voz.

A voz da sua filha.

— Mãe, podes vir aqui?

Helena começou a caminhar pelo corredor.

Mas parou imediatamente.

Porque, atrás de si, junto à porta de entrada, ouviu exatamente a mesma voz.

— Mãe, não vás. Eu estou aqui.

E, pela primeira vez naquela noite, Helena deixou de saber qual das duas vozes pertencia à sua filha.

Rita Isabel Azevedo – Night Wings Tarot

 

 

 

 

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