Quando a Luz Desaparecia do Céu

Imagine viver num mundo onde o Sol não era apenas uma estrela.
Era uma presença divina. Uma força que garantia a ordem, a vida e o equilíbrio do mundo.
Agora imagine vê-lo desaparecer em pleno dia.
Para nós, um eclipse é um fenómeno astronómico perfeitamente explicável.
Sabemos quando vai acontecer, quanto tempo vai durar e até conseguimos observá-lo com alguma tranquilidade. Mas, no Antigo Egipto, olhar para o céu significava observar um lugar onde os deuses se manifestavam. E quando a luz se alterava de forma inesperada, havia razões para prestar atenção.
Quando o céu deixava de obedecer
A religião egípcia estava profundamente ligada aos ciclos da natureza.
O nascer e o pôr do Sol, as cheias do Nilo, as estrelas e a sucessão das estações faziam parte de uma ordem cósmica que precisava de ser preservada.
Essa ordem tinha um nome, Ma’at.
Ma’at representava o equilíbrio, a verdade e a harmonia que mantinham o mundo afastado do caos. Por isso, qualquer acontecimento extraordinário no céu podia adquirir um significado muito maior do que aquele que hoje lhe atribuímos.
E poucas coisas seriam tão inquietantes como ver a luz do Sol enfraquecer de repente.
O dia começava normalmente.
O Sol estava no céu.
As pessoas trabalhavam, os animais moviam-se, a vida seguia o seu ritmo habitual.
Depois, a luz começava a mudar.
As sombras tornavam-se estranhas. A temperatura podia baixar. O comportamento dos animais alterava-se. E, por momentos, aquilo que parecia imutável deixava de o ser.
Para uma civilização que via no Sol uma das maiores manifestações do poder divino, a experiência teria sido impressionante.
Rá e a eterna batalha contra o caos
O Deus do Sol Rá ocupava um lugar central na religião egípcia.
Segundo as crenças antigas, atravessava o céu durante o dia e, ao anoitecer, iniciava uma perigosa viagem pelo mundo subterrâneo.
Era aí que surgia uma das figuras mais temidas da mitologia egípcia, Apófis, ou Apep.
Representado frequentemente como uma enorme serpente, Apófis personificava o caos e tentava impedir a viagem de Rá.
Todas as noites, as forças divinas tinham de o enfrentar para que o Sol pudesse voltar a nascer.
E aqui encontramos uma imagem particularmente inquietante.
A ideia de uma serpente gigantesca a atacar a divindade solar tornou-se, em interpretações modernas, uma forma tentadora de imaginar como alguns egípcios poderiam ter entendido o desaparecimento momentâneo do Sol durante um eclipse.
Mas é importante separar a atmosfera daquilo que podemos realmente provar.
Não existem evidências suficientes para afirmar que todos os eclipses solares eram entendidos pelos antigos egípcios especificamente como um ataque de Apófis.
Os registos egípcios sobre eclipses são relativamente escassos e a interpretação histórica continua a exigir prudência.
Ainda assim, dentro da sua visão do universo, a associação entre a perda da luz e a ameaça do caos faria sentido.
Porque, para os egípcios, a escuridão nunca era apenas ausência de luz.
Era também o território onde a ordem podia ser ameaçada.
E quando era a Lua que desaparecia?
A Lua também tinha importância religiosa e simbólica no Antigo Egipto, estando associada a divindades como Khonsu e Thoth.
Um eclipse lunar transformava lentamente a aparência da Lua. A sua luminosidade diminuía e, durante um eclipse total, podia adquirir aquela estranha tonalidade avermelhada que ainda hoje impressiona quem a observa.
Imagine assistir a isso sem conhecer a mecânica celeste que está por detrás do fenómeno.
A Lua estava lá.
Depois começava lentamente a escurecer.
E ninguém podia simplesmente abrir uma aplicação no telemóvel para descobrir a que horas voltaria ao normal.
É precisamente essa diferença que torna fascinante tentar compreender o olhar dos povos antigos.
O céu não era apenas observado. Era interpretado.
O medo de que a ordem pudesse falhar
Talvez o mais interessante nos eclipses não seja perguntar se os egípcios tinham medo deles, mas perceber por que motivo um fenómeno destes podia ser tão poderoso dentro da sua visão do mundo.
O universo precisava de equilíbrio.
A luz precisava de regressar.
Rá precisava de vencer.
E o caos precisava de permanecer afastado.
Quando o Sol ou a Lua se obscureciam, mesmo que apenas durante alguns minutos, o céu parecia mostrar algo que os egípcios conheciam muito bem através dos seus mitos, a ordem não estava garantida para sempre.
Tinha de vencer continuamente aquilo que ameaçava destruí-la.
E depois acontecia aquilo que talvez fosse mais importante.
A luz regressava.
O Sol reaparecia. A Lua recuperava o seu brilho. O mundo continuava.
Talvez seja precisamente aí que esteja a parte mais fascinante desta história.
Para nós, um eclipse termina quando os astros retomam aparentemente as suas posições habituais.
Para uma civilização que via o universo como uma batalha constante entre ordem e caos, o regresso da luz podia significar algo muito mais profundo:
o equilíbrio tinha vencido outra vez.
E, durante mais uma noite ou mais um dia, o mundo estava a salvo.
Rita Isabel Azevedo – Night Wings Tarot
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