Quando o Céu Era um Mau Presságio

Imagine viver numa época em que ninguém lhe conseguia explicar por que razão o Sol desaparecia a meio do dia.
Não havia previsões astronómicas ao alcance de todos, transmissões em direto ou notificações no telemóvel.
Havia apenas o céu a escurecer, os animais a ficarem inquietos, a temperatura a baixar e uma sombra estranha a avançar sobre a terra.
Por alguns minutos, aquilo que parecia eterno deixava de o ser.
E é fácil perceber por que motivo os eclipses foram, durante séculos, associados ao medo, à morte, aos deuses e a acontecimentos terríveis.
Hoje sabemos que um eclipse é um fenómeno astronómico perfeitamente natural. Mas, para muitas civilizações antigas, quando o Sol ou a Lua desapareciam, alguma coisa estava errada no mundo.
Quando uma criatura devorava o Sol
Uma das crenças mais antigas e fascinantes relacionadas com os eclipses é a ideia de que uma criatura sobrenatural estava a engolir o Sol ou a Lua.
Na antiga China, os eclipses solares foram associados à imagem de um dragão celestial que devorava o Sol.
Perante o perigo, as pessoas procuravam fazer barulho, batendo tambores e outros objetos, numa tentativa simbólica de afastar a criatura e devolver a luz ao céu.
Noutras culturas, a criatura mudava, mas o medo era semelhante.
Na tradição hindu, os eclipses ficaram ligados ao mito de Rahu, uma figura associada à perseguição do Sol e da Lua. Na mitologia nórdica, por sua vez, lobos monstruosos perseguiam os astros pelo céu.
É curioso pensar nisto: povos separados por enormes distâncias olharam para o mesmo fenómeno e imaginaram algo muito semelhante.
Alguma coisa estava a tentar comer a luz.
O eclipse como anúncio de morte e desgraça
Mas nem todos acreditavam que o Sol estava simplesmente a ser atacado.
Em várias sociedades antigas, um eclipse podia ser interpretado como um aviso dos deuses.
Guerras, fome, doenças, quedas de governantes e outras calamidades podiam ser associadas ao desaparecimento inesperado de um astro.
E havia uma razão para isso.
O Sol representava ordem, poder, vida e continuidade.
Quando desaparecia durante o dia, ainda que apenas por alguns minutos, parecia que essa ordem tinha sido quebrada.
Imagine assistir a isso sem conhecer a explicação científica.
O dia transforma-se subitamente numa espécie de crepúsculo.
As sombras mudam. As aves alteram o comportamento.
O ambiente arrefece. As pessoas olham para cima e ninguém sabe ao certo se a luz vai regressar.
Durante aqueles minutos, acreditar que algo terrível estava prestes a acontecer talvez não parecesse superstição.
Parecia simplesmente lógico.
Reis que tinham razões para temer o céu
Na antiga Mesopotâmia, os eclipses podiam ser interpretados através da astrologia e da adivinhação como sinais relacionados com o destino dos reis e dos reinos.
E algumas destas crenças iam bastante longe.
Existem registos de práticas em que, perante determinados presságios celestes considerados perigosos para o soberano, podia ser colocado temporariamente no trono um chamado “rei substituto”.
A intenção era simples e perturbadora: se a desgraça anunciada pelos céus procurava o rei, talvez encontrasse outro homem sentado no seu lugar.
O verdadeiro soberano permanecia protegido enquanto o presságio passava.
Hoje parece-nos estranho.
Naquele tempo, porém, política, religião, astrologia e poder estavam profundamente ligados.
O céu não era apenas observado.
Era interpretado.
E os eclipses da Lua?
Os eclipses lunares também despertavam receio, sobretudo quando a Lua adquiria aquele tom avermelhado que ainda hoje lhe vale expressões como “Lua de Sangue”.
Sem conhecerem as causas físicas dessa transformação, algumas populações viam naquela Lua vermelha um sinal de violência, sangue, conflito ou mudança.
A Lua sempre esteve ligada ao mistério. À noite. Aos ciclos. Ao invisível.
Vê-la mudar de cor diante dos próprios olhos só poderia tornar o fenómeno ainda mais inquietante.
Mesmo atualmente, sabendo exatamente por que acontece, existe qualquer coisa de estranhamente hipnótico numa Lua avermelhada suspensa num céu escuro.
Talvez seja precisamente por isso que algumas superstições nunca desapareceram por completo.
Gravidez, alimentos e outras superstições
Com o passar do tempo, os eclipses deram origem a muitas outras crenças populares.
Em diferentes regiões do mundo surgiram superstições segundo as quais uma mulher grávida deveria proteger-se durante um eclipse, evitar sair de casa ou seguir determinados rituais para impedir que o fenómeno afetasse o bebé.
Também existiram e algumas continuam a existir crenças relacionadas com alimentos preparados durante um eclipse, objetos que deveriam permanecer protegidos, banhos de purificação, orações e práticas destinadas a afastar energias consideradas negativas.
Não existe fundamento científico para estas superstições.
Mas isso não as torna menos interessantes.
Porque uma superstição raramente fala apenas daquilo em que alguém acredita. Também nos mostra aquilo que uma sociedade teme.
Talvez o mais assustador seja imaginar o primeiro eclipse
Há algo que gosto particularmente de imaginar.
Não os sacerdotes que já sabiam interpretar os sinais. Não os astrónomos que aprenderam a prever os ciclos.
Mas alguém muito antes disso.
Uma pessoa comum, algures num passado distante, ocupada com a sua vida, quando percebe que a luz começa inexplicavelmente a desaparecer.
Olha para o céu.
O Sol está a ficar negro.
Os animais comportam-se de maneira estranha.
As pessoas começam a chamar umas pelas outras. Talvez alguém reze. Talvez outro grite. Talvez ninguém saiba o que fazer.
E depois chega a escuridão.
Durante alguns minutos, ninguém sabe se o Sol alguma vez voltará.
Nós conhecemos a resposta.
Eles não conheciam.
E talvez seja precisamente aí que nasceram muitos dos mitos sobre os eclipses: naquele breve momento em que a humanidade olhou para o céu e percebeu que até aquilo que parecia eterno podia, de repente, desaparecer.
Hoje esperamos por um eclipse com curiosidade, câmaras e óculos de proteção.
Os nossos antepassados esperavam que a luz regressasse.
E, durante alguns minutos, talvez tenham acreditado verdadeiramente que o mundo estava a chegar ao fim.
Rita Isabel Azevedo – Night Wings Tarot
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