
Há palavras que nos esquecemos poucos minutos depois de as ouvir. Outras ficam connosco durante anos.
Uma frase dita no momento certo pode dar-nos coragem.
Uma palavra de carinho pode mudar um dia difícil.
Um elogio inesperado pode devolver confiança a alguém que estava a começar a duvidar de si próprio. Mas também acontece o contrário.
Há palavras ditas num instante que deixam marcas muito depois de a conversa terminar.
Talvez seja por isso que se diz tantas vezes que as palavras têm poder.
E têm.
Não porque sejam fórmulas mágicas capazes de transformar a realidade apenas por serem pronunciadas, mas porque aquilo que dizemos influencia pensamentos, emoções, relações e, muitas vezes, as decisões que tomamos.
As palavras que dizemos aos outros
Todos nós guardamos frases que alguém nos disse.
Algumas são boas.
Talvez um professor que acreditou em nós quando ainda não acreditávamos.
Um amigo que disse exatamente aquilo de que precisávamos num momento difícil. Uma pessoa que nos fez perceber que tínhamos mais valor do que imaginávamos.
Mas também existem aquelas frases que gostaríamos de nunca ter ouvido.
“Nunca vais conseguir.”
“Não és suficientemente bom.”
“Isso não é para ti.”
“Estragas sempre tudo.”
Por vezes, quem diz estas coisas esquece-as no dia seguinte.
Quem as recebe pode carregá-las no peito durante anos.
É aqui que percebemos verdadeiramente o poder das palavras.
Aquilo que para uma pessoa foi apenas um comentário pode tornar-se, para outra, uma voz interior.
Por isso, escolher as palavras não significa viver com medo de falar. Significa apenas compreender que aquilo que dizemos também deixa rasto.
E as palavras que dizemos a nós próprios?
Talvez estas sejam ainda mais importantes.
Existe uma conversa que nos acompanha praticamente todos os dias: aquela que mantemos dentro da nossa própria cabeça.
E nem sempre somos particularmente gentis connosco.
“Eu não consigo.”
“Sou um desastre.”
“Nunca tenho sorte.”
“Ninguém me valoriza.”
“Tudo me corre mal.”
Quando repetimos constantemente determinadas ideias, começamos a aceitá-las como verdades. E, quando acreditamos nelas, é natural que passem a influenciar a forma como agimos.
Se alguém acredita profundamente que vai falhar, talvez nem tente.
Se acredita que não merece ser amado, pode aceitar relações que lhe oferecem muito menos do que deveria.
Se repete continuamente que nada vai mudar, pode deixar passar oportunidades simplesmente porque já decidiu, antecipadamente, que não resultarão.
As palavras não precisam de mudar magicamente o mundo exterior para terem poder.
Basta percebermos que podem mudar a maneira como olhamos para ele.
Aquilo que repetimos ganha espaço dentro de nós
Na espiritualidade, fala-se frequentemente sobre a energia das palavras, o poder da intenção e das afirmações positivas.
Independentemente da forma como cada pessoa interpreta estas ideias, existe algo muito concreto por detrás delas, aquilo em que concentramos repetidamente a nossa atenção tende a ocupar cada vez mais espaço mental e emocional.
Isto não significa que basta dizer “vai correr tudo bem” para que todos os problemas desapareçam.
A vida não funciona assim.
O pensamento positivo não paga as contas, não resolve sozinho uma relação difícil e não elimina problemas apenas porque decidimos ignorá-los.
Mas existe uma diferença enorme entre enfrentar uma dificuldade pensando “não há nada que eu possa fazer” e perguntar “o que posso fazer a partir daqui?”.
A situação pode ser exatamente a mesma.
A postura perante ela já não é.
E, muitas vezes, é precisamente aí que começa a mudança.
Cuidado com aquilo que transforma em identidade
Há uma diferença importante entre dizer:
“Eu falhei.”
e dizer:
“Eu sou um fracasso.”
Na primeira frase existe uma experiência.
Na segunda existe uma identidade.
Todos falhamos. Todos cometemos erros.
Todos temos dias em que reagimos mal, fazemos escolhas pouco acertadas ou simplesmente não conseguimos aquilo que queríamos.
Mas um acontecimento não precisa de transformar-se numa definição de quem somos.
As palavras que escolhemos para falar sobre nós próprios podem abrir possibilidades ou fechá-las.
“Eu ainda não consegui” deixa espaço para continuar.
“Eu nunca vou conseguir” fecha a porta antes de sabermos o que poderia acontecer.
Uma única palavra pode mudar completamente a forma como interpretamos uma situação.
As palavras também criam relações
Pense nas pessoas de quem gosta.
Quantas vezes assumimos que elas sabem aquilo que sentimos e, por isso, deixamos de o dizer?
“Obrigada.”
“Gosto de ti.”
“Tenho orgulho em ti.”
“Desculpe.”
“Preciso de ajuda.”
“Estou aqui.”
São frases simples. Nenhuma delas precisa de ser extraordinária para ser importante.
Por vezes procuramos grandes gestos quando aquilo de que alguém precisava era apenas de ouvir algumas palavras sinceras.
Também acontece nas discussões.
Existem palavras que resolvem e palavras que aumentam feridas. Podemos estar zangados e, ainda assim, escolher não dizer aquilo que sabemos que irá atingir exatamente o ponto mais vulnerável da outra pessoa.
Porque pedir desculpa por uma frase demora segundos.
Fazer alguém esquecê-la pode ser impossível.
Falar também é uma forma de intenção
Em muitas tradições espirituais, a palavra sempre teve um lugar especial. Orações, mantras, bênçãos, cânticos, afirmações e invocações atravessam culturas e séculos.
Existe algo profundamente humano no ato de dar voz àquilo que desejamos, tememos, agradecemos ou procuramos compreender.
Quando verbalizamos uma intenção, ela deixa de ser apenas um pensamento difuso.
Ganha forma.
“Quero mudar.”
“Não aceito mais isto.”
“Preciso de cuidar de mim.”
“Vou tentar novamente.”
“Estou preparado para deixar isto para trás.”
Talvez nenhuma destas frases faça milagres por si só. Mas algumas podem marcar o instante exato em que começamos a tomar uma decisão diferente.
E isso já é uma forma de poder.
Escolha melhor aquilo que alimenta com palavras
Não se trata de vigiar cada frase que diz nem de transformar a vida numa sucessão de afirmações positivas.
Trata-se de prestar atenção.
À forma como fala consigo.
Àquilo que repete constantemente.
Às palavras que utiliza quando está zangado.
À maneira como fala sobre os seus sonhos antes mesmo de tentar concretizá-los.
E, sobretudo, àquilo que diz às pessoas que ama.
Porque nunca sabemos exatamente quanto tempo uma palavra ficará dentro de alguém.
Hoje, antes de dizer “não consigo”, experimente acrescentar uma pequena palavra:
“Ainda.”
Ainda não consigo.
Ainda não sei.
Ainda não encontrei a solução.
Ainda não cheguei onde quero.
Parece pouco.
Mas deixa uma porta aberta.
E algumas mudanças começam precisamente assim, não com grandes promessas, mas com uma maneira diferente de falar connosco e com o mundo.
As palavras têm poder.
Use-as para dizer a verdade, para estabelecer limites, para pedir ajuda, para agradecer, para encorajar, para amar e também para recomeçar.
Porque aquilo que dizemos não desaparece simplesmente no momento em que o som termina.
Às vezes, fica.
E, quando fica, pode mudar muito mais do que imaginamos.
Rita Isabel Azevedo – Night Wings Tarot
Deixe um comentário